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Mulher de 38 anos apresenta dor cervical anterior intensa, irradiada para a orelha direita, odinofagia e febre baixa há 10 dias, após quadro de infecção de vias aéreas superiores. Ao exame, a tireoide está difusamente aumentada e extremamente dolorosa. TSH (Thyroid Stimulating Hormone) suprimido, T4 livre elevado, anti-TPO (anticorpo antitireoperoxidase) negativo, VHS (velocidade de hemossedimentação) de 98 mm/h e captação de iodo radioativo (RAIU - Radioactive Iodine Uptake) em 24 horas menor que 2%. A conduta mais adequada neste momento é:
A. Tionamidas em dose plena, seguidas de iodo radioativo terapêutico após recuperação da captação
INCORRETO: Tionamidas e iodo radioativo destinam-se à doença de Graves e à hiperfunção autonômica, nas quais a captação é alta. Aqui a tireotoxicose é por destruição folicular, com captação baixíssima
B. Antibioticoterapia de amplo espectro e drenagem cirúrgica imediata da glândula
INCORRETO : Antibioticoterapia e drenagem aplicam-se à tireoidite aguda supurativa, que cursa com eritema cutâneo, flutuação, leucocitose marcada e pus na punção, achados ausentes neste quadro típico de De Quervain
C. Anti-inflamatório e, se a dor for intensa, glicocorticoide; antitireoidiano de síntese não está indicado
CORRETO : O quadro é de tireoidite granulomatosa subaguda (De Quervain): dor migratória, VHS muito alta, anticorpos negativos e RAIU colapsada. A tireotoxicose é por extravasamento hormonal; AINE (anti-inflamatório não esteroide) ou glicocorticoide controlam a inflamação e o beta-bloqueador os sintomas adrenérgicos
D. Tireoidectomia total de urgência pela suspeita de carcinoma anaplásico paucicelular
INCORRETO : O carcinoma anaplásico pode simular massa pétrea e compressão, mas não reproduz o conjunto de IVAS prévia, VHS extrema e captação difusamente nula com recuperação esperada
E. Iodo radioativo terapêutico imediato por se tratar de tireotoxicose de alto débito
INCORRETO : Iodo radioativo terapêutico exige captação adequada do traçador. Na fase destrutiva a captação é mínima e o radiofármaco não atua sobre o parênquima inflamado
Gabarito: C
RATING: 3.04 ![]()
FONTE:
Mulher de 36 anos, G2P2, 14 semanas após parto vaginal a termo, em amamentação exclusiva. Na gestação, anti-TPO positivo (320 UI/mL) com TSH e T4 livre normais; não usou levotiroxina. Há 4 semanas apresentou quadro viral de vias aéreas superiores (odinofagia, mialgia, febrícula), autolimitado. Há 10 dias surge dor intensa na face anterior do pescoço, com irradiação para a mandíbula e o ouvido direitos, pior à deglutição e à palpação, acompanhada de sudorese, palpitações, tremor fino e insônia. Nega diplopia, oftalmopatia, prurido ocular ou perda ponderal prévia à fase dolorosa.
Exame: T 37,8 °C; FC 112 bpm; PA 128/72 mmHg. Tireoide difusamente aumentada, consistência firme, extremamente dolorosa à palpação, sem eritema cutâneo, sem flutuação e sem linfonodomegalia cervical dominante. Sem oftalmopatia. Reflexos vivos. Sem sinais de compressão de via aérea.
Laboratório: TSH < 0,01 mUI/L; T4 livre 3,4 ng/dL (VR 0,8–1,8); T3 livre 6,8 pg/mL (VR 2,3–4,2); anti-TPO 410 UI/mL; TRAb negativo; VHS 82 mm/h; PCR 48 mg/L; leucócitos 11.200/mm³ sem desvio à esquerda; hemoglobina 11,8 g/dL. Ultrassonografia: glândula aumentada, heterogênea, hipoecoica, com vascularização reduzida ao Doppler. Cintilografia não realizada (amamentação).
(I) Qual o diagnóstico mais provável e quais elementos do caso o sustentam frente às demais tireoidites? (0,1 pontos)
(II) Como se explica o perfil hormonal atual e por que tionamidas não estão indicadas? (0,1 pontos)
(III) Quais achados separam este quadro da doença de Graves, da tireoidite pós-parto clássica e da tireoidite aguda supurativa? (0,1 pontos)
(IV) Qual a conduta terapêutica imediata, considerando dor, tireotoxicose e amamentação? (0,1 pontos)
(V) Qual a evolução natural esperada, o risco de hipotireoidismo permanente e o plano de seguimento? (0,1 pontos)
O diagnóstico mais provável é tireoidite subaguda granulomatosa de De Quervain (0,04 p). Sustentam essa hipótese: dor tireoidiana intensa com irradiação para mandíbula e ouvido (0,02 p); pródromo de infecção de vias aéreas superiores (0,01 p); VHS e PCR marcadamente elevadas (0,02 p); e o fato de a tireoidite pós-parto clássica ser indolor e cursar com VHS habitualmente normal (0,01 p).
Trata-se de tireotoxicose destrutiva (0,03 p): o TSH baixo com T4 livre elevado resulta da liberação de hormônio pré-formado pelos folículos lesionados, e não de síntese aumentada (0,03 p). Se a captação de iodo radioativo pudesse ser feita, estaria baixa na fase tireotóxica (0,02 p). Tionamidas (metimazol/PTU) são ineficazes, porque não há hiperprodução glandular a bloquear (0,02 p).
Dor leve a moderada: AINE (ibuprofeno ou equivalente) como primeira linha (0,02 p). Dor intensa ou falha do AINE em poucos dias: glicocorticoide (p. ex., prednisona 15–40 mg/dia, com desmame gradual) (0,03 p). Sintomas adrenérgicos: betabloqueador (propranolol ou equivalente compatível com amamentação) (0,02 p). Não iniciar tionamidas (0,01 p). Cintilografia com iodo/tecnécio está contraindicada na amamentação (0,02 p).
Curso clássico trifásico: tireotoxicose → hipotireoidismo transitório → recuperação (0,03 p). A maioria retorna ao eutireoidismo em até 12 meses (0,02 p). Hipotireoidismo permanente ocorre em cerca de 5–15% na De Quervain e em 15–50% na tireoidite pós-parto (0,03 p). Reavaliar TSH/T4 livre a cada 4–8 semanas; usar levotiroxina se houver hipotireoidismo sintomático, TSH > 10 mUI/L ou desejo de nova gestação (0,02 p).
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